André Prous – As descobertas arqueológicas em Minas Gerais.

 

Trechos da entrevista com André Prous Poirier, pesquisador e professor das áreas de Arqueologia e Antropologia da Arte, na Faculdade de Filosofia e Ciência Humana da UFMG, responsável pela descoberta do sítio de Montalvânia, onde se encontram as gravuras rupestres cuja réplica a exposição Demasiado Humano do Espaço TIM UFMG do Conhecimento traz ao público. A entrevista foi concedida ao historiador René Lommez Gomes.

 

Como foi sua participação na Missão Franco-Brasileira?

Eu vim para o Brasil em 1971, no momento em que se estava decidindo o projeto arqueológico de vários anos, então eu participei até o final. Eu escavei na Lapa Vermelha, onde foi achada a Luzia, e no último ano, 1976, eu fui encarregado de começar as escavações na Serra do Cipó, onde nós achamos um sítio mais rico que o da Lapa Vermelha, que permitiu ter uma ideia mais completa da ocupação no período de 9 a 8 mil anos atrás.

Como iniciou as pesquisas no sítio de Montalvânia?

Foi meio por acaso, em 1976, nós estávamos em Lagoa Santa, e a Universidade ainda não tinha contratado arqueólogos, então não tinha ninguém em Minas para cuidar da arqueologia, mas já tinha um serviço do patrimônio estadual, que já existia, e recebemos um telefonema uma noite do diretor do patrimônio estadual, falando que tinha recebido a visita de um prefeito que estava trazendo fotografias de uma coisa que parecia muito espetacular, e não sabia o que fazer com isto, e perguntava se a gente podia ir de noite para ver. Saímos de Lagoa Santa depois do trabalho, lá pelas 7, 8 horas da noite, ficamos até as duas da manhã. Parecia uma coisa muito excepcional. Na região de Lagoa Santa tinha muita coisa destruída, já tinha pedido para passar para a Serra do Cipó, para procurar uma região de sítios mais intactos. Fui indicado para ir lá com mais quatro pessoas e fomos lá durante uma semana, e foi decidido para o ano seguinte. Eu acabava de ser contratado pela UFMG, tínhamos que abrir um campo para a equipe do setor de Arqueologia, então decidimos que esse campo poderia ser Montalvânia, pois o prefeito estava propondo um apoio financeiro.

Como é o cotidiano do trabalho de campo?

Cada caso é um caso diferente. Por exemplo, no Peruaçu o trabalho era com prazo, de um mês e meio. No início, no Peruaçu, não teve cidade, não tinha nada. Tinha que ir à cidade uma vez por semana em uma kombi para comprar carne para uma semana, fazia as tiras, fazia carne seca, carne de sol, ficamos praticamente isolados mais de um mês. Em compensação, em outros lugares, como a Serra do Cipó, ficamos numa área preservada, onde havia uma usina, tinha uma casa para os engenheiros, então tínhamos uma casa onde podíamos ficar, tinha conforto. Ficamos um pouco integrados com o pessoal que trabalhava para a usina, que viraram amigos. No Peruaçu também tivemos contato muito grande com os componentes de lá, os pequenos fazendeiros, pessoal com os qual tivemos um vínculo afetivo muito, muito grande. Então tem escavação e tem contato com a população local, em especial. Em compensação, em Buritizeiro ficamos no centro da cidade, a escavação ficava no centro da cidade, tinha que atravessar uma rua, e o nosso contato com a população era mínimo. Consistiu em dar palestras uma ou duas vezes para o pessoal das escolas e o pessoal que nos via trabalhando numa grade aberta, fazia perguntas. Ficamos conhecendo o pessoal do bar, e também pescadores, para pegar informações com eles.

Quem encontra um vestígio arqueológico, pode retirar desse lugar, como que funciona isso? Pode vender, ou não pode?

 Em 1961, tem uma legislação que considera qualquer vestígio arqueológico como bem da União. Portanto, não pode ser vendido, nem aberto. As coleções particulares anteriores a 61 podem ser legalizadas. As posteriores são ilegais. O patrimônio tem que dar um destino para qualquer vestígio. Às vezes um cara tem uma peça, um machado polido, e usa isso como uma escora de porta. Chega lá o cara na casa do caboclo, vê a lâmina do machado e fala “ah, isso é bem da União, vou pegar”. Se você fizer isto, você faz um inimigo para a Arqueologia, não somente deste homem, mas de todo o pessoal de lá. Então uma coisa é a lei, outra coisa é como aplicar. Tem que informar as pessoas, falar que não tem valor comercial. Se você arrancar, o pessoal já vai achar que vale ouro. Então bate a fotografia, desenha, pede autorização para fazer isto, explica a lei: “Perante a lei, o senhor é chamado de Fiel Depositário. Nós vamos avisar o Patrimônio que o senhor está com isto, o Patrimônio, se quiser, pode deixar com o senhor, provavelmente isto que vai acontecer, mas o senhor não é o proprietário”. Ele vai ser responsável por um bem, e pronto. “Eu recomendo o senhor a doar para uma instituição da cultura local, para um museu, ou equivalente.” Mas nós não somos fiscais do Patrimônio.

Existem muitos casos de encontro acidental?

Sim, o pessoal que passa arado, a lei está tão boa que não podia fazer mais agricultura em lugar nenhum. Onde o pessoal faz agricultura é onde tem terra boa, onde tem terra boa os índios cultivaram, então você vai encontrar, vai estourar uma panela, um fragmento de um batedor, uma lasca, etc., que teoricamente serviria para interditar a área para o trabalho. Cadê o arqueólogo para fazer um estudo e liberar? Não tem. Então, mais uma vez, a lei decreta que todos os sítios são protegidos (mas se a gente sai dessa sala e deixa uma moeda, isto pode se tornar um sitio). Então tem que ir com bom senso, tem que fazer o que a gente chama de educação patrimonial, para o pessoal se acostumar. Agora, em 1976, quando fui contratado pela UFMG, qual foi a primeira coisa que eu fiz? Enviei uma carta para todos os municípios, todos os secretários de cultura, todos os municípios de Minas Gerais, assinei centenas de cartas, solicitando informações para fazer um fichário com todas as ocorrências de panelas de índio, ossos velhos, etc. Recebi uma avalanche de cartas. O que fazer com isto? Está tudo no fichário. A maioria das coisas ninguém foi lá para ver.

No próximo “Café com Conhecimento”, o arqueólogo André Prous fará uma palestra sobre “As Culturas Pré-Cabralinas do Brasil”. No encontro, ele vai falar sobre as descobertas arqueológicas em Minas Gerais.

Serviço

Data: 3 de dezembro, sábado, às 11 horas

Local: California Coffee – andar térreo do Espaço TIM UFMG do Conhecimento – Praça da Liberdade, s/n – Alameda da Educação

Entrada Franca

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