Maria Inês de Almeida: Índio só vive pela alegria.

Maria Inês de Almeida é coordenadora do curso de Formação Intercultural de Educadores Indígenas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), desde a criação em 2006. Mas seu contato com os  índios vem de quase 20 anos. Ela também foi consultora da exposição Demasiado Humano, em cartaz no Espaço TIM UFMG do Conhecimento. Na entrevista abaixo, Inês fala sobre a situação atual dos indígenas brasileiros, por ocasião da comemoração do Dia do Índio, no dia 19 de abril.   
1 – O indígena mineiro e brasileiro ainda tem só o dia 19 de abril para comemorar sua existência?

Os índios só continuam existindo porque todos os dias comemoram a vida. A alegria de viver – prova dos nove – é a marca mais visível dos chamados “índios”.
2- Pelo experiência adquirida em seu contato de quase duas décadas com pessoas de várias tribos, no curso de formação intercultural de educadores indígenas da UFMG, como estabelecer uma relação digna entre a cultura branca e a indígena?

Na verdade, meu contato antecede o curso de formação intercultural da UFMG, que começou em 2006. Comecei a trabalhar com os professores indígenas em 1996, no Programa de Implantação das Escolas Indígenas de MG, da Secretaria de Estado da Educação. Qualquer relação digna se baseia no respeito mútuo. Entre “brancos” e “índios” não é diferente. O diálogo, possível com a escuta e a atenção, é fundamental para a relação.
3- O censo de 2010 deve indicar o crescimento da população de alguns povos que vinham se extinguindo ao longo do século XX. A que se deve essa inversão?

Deve-se principalmente à constituição de 1988, que passou a garantir aos povos indígenas o direito às próprias culturas: línguas e linguagens, religiões, e, principalmente, a suas terras. O direito aos territórios simbólicos e reais fez com que os povos fossem reconhecidos enquanto tais, e também que as populações das aldeias aumentassem.

4- A participação dos povos indígenas na formação do povo brasileiro é muito representativa. De modo geral, todos os brasileiros têm sangue indígena.

No Brasil, só não é índio quem não quer ser. Digo isto parafraseando o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que em um ensaio interessante chama a atenção para o fato de que todos nós, brasileiros, somos em alguma medida indígenas: pelo parentesco sanguíneo, pelo parentesco cultural, pela língua, pela forma de amar, de ser feliz, de rezar, etc.
5- Pelo estágio atual de aculturação e miscigenação dos povos indígenas, para qual lugar aponta o futuro das etnias brasileiras?       

Aculturação é uma palavra que caiu em desuso porque não corresponde a nenhuma realidade. Isto não existe. Cultura é justamente aquilo que se baseia na transformação. Sem tradução não existe tradição. Mestiçagem é o que há: desde que o mundo é mundo os povos estão se misturando. A vitalidade da espécie humana, sua força, está na miscigenação.

Os povos indígenas, em geral, amam a mistura e a mudança. O ameríndio basicamente é aquele que diria, como lembra  Oswald de Andrade: “só me interessa o que não é meu”.

Poderíamos afirmar, fazendo um projeto de futuro para o Brasil: seremos realmente livres e independentes na medida em que cada vez mais nos devirmos indígenas.  (Nice Silva)

Uma resposta to “Maria Inês de Almeida: Índio só vive pela alegria.”

  1. Maria Inês de Almeida: Índio só vive pela alegria. « Núcleo de Pesquisas Literaterras Says:

    […] Fonte: Espaço TIM UFMG do Conhecimento […]

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