Público aplaude mesa-redonda de poetas.

Chacal, Marcelo Dolabela, Heloísa Starling e Ricardo Aleixo.

A poesia feita no tempo da ditadura militar e da contracultura, assim como o movimento estudantil da época, interessa  a muita gente. Esse foi o recado deixado pela plateia que lotou o quinto andar do Espaço TIM UFMG do Conhecimento, ontem à noite. Cerca de 80 pessoas compareceram para ouvir Chacal, Marcelo Dolabela e Ricardo Aleixo, três grandes poetas brasileiros, falarem sobre Poesia Marginal e Movimento Estudantil. O evento foi realizado em parceria com o projeto Sentimentos do Mundo, da UFMG.
Chacal é referência da poesia dos anos 1970 feita no Rio e Dolabela, expoente do chamado poema marginal em Minas. Aleixo, que não participou nem do movimento estudantil nem da poesia da época, admitiu sua opção pela margem. Ele decidiu não cursar universidade e morar em uma região da periferia de Belo Horizonte.  “Não é um problema para o poeta estar à margem. Esta condição de marginal parece ser a única posição eticamente defensável para o poeta”, disse, em contribuição ao debate que, 40 anos depois, ainda tem indefinido o conceito de poesia marginal no Brasil.
Sobre o Movimento Estudantil, Chacal lembrou que ele esteve mais atrelado à poesia em Belo Horizonte do que no Rio de Janeiro. O não engajamento dos autores, segundo ele, os fazia receber críticas tanto da direita quanto da esquerda. “Para a direita, éramos porra-loucas, para a esquerda, éramos alienados. O fato é que o poder, que tanto a esquerda quanto a direita queria, não nos interessava”, diz.  Já Marcelo Dolabela diz acreditar que, em Belo Horizonte, a proximidade dos poetas com as universidades se deveu ao fato de que os autores sentiam um pouco mais seguros se mantendo ligados às entidades estudantis por causa do clima opressivo da ditadura militar.       

 
O rótulo de poesia marginal

 
Dolabela explicou que a necessidade de colocar uma rubrica nos movimentos artísticos não se restringe à poesia chamada marginal, mas pode ser conferida em outros fenômenos da cultura brasileira, como o Modernismo, a Jovem Guarda ou o Axé Music. “No caso da poesia marginal, o que contribui para a falta de definição foi que ela não teve um evento marcante que servisse para classificá-la, como fizeram os autores do poema-processo, por exemplo. Eles se distinguiram como tais por rasgar obras de autores como Drummond e João Cabral de Melo Neto no Teatro Municipal com os quais manifestaram uma ruptura”. Nesse sentido, Chacal aponta que a marca da poesia marginal era a contracultura; se havia cultura era para ser negada. “O cânone passou despercebido”, observa.
Chacal ressaltou ainda que, para o pessoal da poesia marginal, o que contava era escrever e ser lido. Essa preocupação norteava todo o processo editorial que fazia do autor o editor e distribuidor. Normalmente, os poemas eram mimeografados e distribuídos em bares pelos autores.  Segundo ele, a poesia dos anos 70 tinha um compromisso de usar a palavra para falar com o outro e isso facilitava o contato com os leitores. “Hoje a poesia está muito focada em si própria. Abandonou a vida que se leva e se tornou um laboratório de elaborações quiméricas para o bem e para o mal”, arrematou, sugerindo que os poetas atuais devem pensar um pouco no outro ao escrever.

Impulso da contracultura

A mesa-redonda, que teve mediação da professora Heloísa Starling, também apontou os avanços sócio-culturais impulsionados pela contracultura, ou da época de todos os Power – Black Power ou Gay Power _, como definiu Chacal. Ricardo Aleixo ponderou que nunca em outros tempos Belo Horizonte assistiu ao que se vê nos últimos anos, que são os jovens negros se apropriando do espaço urbano. Ele citou também a Batalha de MC´s que acontece embaixo do Viaduto Santa Tereza e que reúne tantos jovens da periferia como jovens das áreas centrais da cidade priorizando o coletivo em vez de grupos.

Sobre a crítica da alienação dos jovens mencionada por Chacal, Aleixo contrapõe: há juventudes e não uma única juventude.  A professora Heloisa destacou que a mesa-redonda tinha o objetivo de resgatar a memória da história recente brasileira. “Conhecer a memória é importante tanto para saber do que se passou naqueles anos como para avaliar o momento atual”, concluiu. (Nice Silva)

*Foto: Izzabella Campos

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