Entrevista com Lucia Castelo Branco sobre Gabriela Llansol

Na entrevista abaixo, concedida por e-mail, a professora Lucia Castelo Branco fala sobre a escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol, que faleceu em 2008. Llansol vem sendo ‘redescoberta’ como grande mito da literatura portuguesa e ainda este ano terá algumas de suas obras lançadas no Brasil. No sábado, 18, a professora de Literatura da UFMG proferiu a palestra O Mundo está prometido ao drama-poesia. O desafio de Maria Gabriela Llansol, no California Coffee – Espaço TIM UFMG do Conhecimento. Confira.  

– Queria saber por que você quis trazer a Maria Gabriela Llansol ao Espaço do Conhecimento. 

L.C.B-Não sou eu quem quero trazer a Gabriela Llansol, é ela quem vem comigo… (rs) É sempre assim, desde 1992, quando a conheci, junto com o seu texto. Desde então, sempre estou trazendo a Gabriela Llansol. Desta vez, o convite foi mesmo para que eu falasse dela, de sua obra. Muitos já conhecem um pouco desse texto e já sabem dos impactos que ele é capaz de causar em quem o lê e, por que não dizer, na cultura, no pensamento, na vida. Este ano, em outubro, a Editora Autêntica, de Belo Horizonte, vai começar a lançar as obras de Maria Gabriela Llansol no Brasil. Sou eu, no Brasil, juntamente com os colegas do Espaço Llansol, em Sintra, a responsável por essa coleção, que começa com os três diários da autora. Antes de morrer, Llansol havia colocado nas minhas mãos essa responsabilidade, assim como colocou outras, sem que eu e ela o soubéssemos exatamente quais eram, mas todas têm a ver com a transmissão desse texto. Quando nos conhecemos, em 92, ela não se deixava fotografar, não dava entrevistas etc. Mas nunca se recusou ao encontro, quando esse encontro significava, para ela, a “troca verdadeira”, como ela o chama. Lembro-me que, na ocasião, quando ela soube que eu não era jornalista, ela respirou aliviada, e me disse: “Então, isso vai demorar bastante, vai levar muito tempo…” E eu disse “sim”, sem saber exatamente o que estava dizendo. Agora, quando já se passaram quase vinte anos, quando mais de 20 teses, dissertações e projetos de iniciação científica sobre a obra de Llansol já foram desenvolvidos, na Faculdade de Letras da UFMG (o que significa mais de um projeto por ano e isso é um record na FALE; não temos nenhum autor, nem mesmo brasileiro, que tenha alcançado isso, em vinte anos), vejo que ela tinha razão. É um projeto para a vida inteira: a minha e a de todos os que se acercam, “de verdade” (na “troca verdadeira”), desse texto.  Lembro que, em 92, Llansol me disse, em entrevista: “Creio que este texto vai chegar a Portugal, depois de ter passado pelo Brasil e pela Bélgica… E isso vai ser importante, porque Portugal precisa de um texto como esse.” Foi exatamente o que aconteceu. Agora o texto chega com força a Portugal e a outros países da Europa, principalmente através do trabalho feito pelos colegas do Espaço Llansol, mas antes esse texto já havia passado, com força, pelo Brasil. Essa frase de Llansol tem o poder de uma frase oracular, como aquela de Joyce, que dizia que ia deixar a academia ocupada 300 anos com o seu texto. Aliás, Pessoa tem também frases desse tipo. Os poetas vêem, como escreve Llansol, e anunciam “a geografia imaterial por vir”.

– Fala-se que em termos de representatividade, Llansol tende a ter uma projeção semelhante à de Fernando Pessoa para a literatura portuguesa.

L.C.B.-Tenho certeza disso. Nunca duvidei disso. A Maria Rolim, que foi uma das primeiras editoras de Llansol, disse-me também que sempre soube disso, que sempre soube que estava diante de uma das maiores escritoras de todos os tempos. Mas, é claro, foi preciso que ela desaparecesse deste mundo, que um crítico importante como o Eduardo Lourenço fizesse publicamente, em uma revista de literatura,  a declaração de que ela será “o novo mito português”… É sempre assim que acontece. Mas o texto resiste. Resiste inclusive aos rótulos que tentam aprisioná-lo nos moldes de uma literatura canônica. Porque é preciso, sempre, lembrar de uma das declarações da escritora, que hoje soa quase como um aforismo: “Não há literatura”. E ela continua: “Quando se escreve, só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros.”

– O que você acha importante destacar sobre a poeta?

L.C.B.-Em primeiro lugar, é preciso lembrar que Llansol não é exatamente o que se chama convencionalmente de “poeta”… Ela escreveu pouca poesia e publicou em prosa, embora com vários recursos que, também convencionalmente, podemos chamar de poéticos: espaçamentos na frase, itálicos, cortes na linha, o traço.Mas é verdade também que a questão que anima seu texto é a questão que ela chamou de “dom poético”. Sem o dom poético, ela escreve, a “liberdade de consciência” definhará. Então, talvez eu pudesse responder, muito rapidamente, que é o “dom poético” o que pode “tornar a vida das pessoas mais rica”, lembrando sempre que o “mais rica”, no contexto de Llansol, significa, entre outras coisas, “evoluir para pobre”… (rs)

– Ela tinha uma relação diferente com a palavra. Esta relação acabou por dar uma feição muito própria ao texto de Llansol?
 L.C.B.-Sim, ela tinha uma relação muito particular com a palavra… Como todo escritor, aliás. Mas Llansol era radical e levava essa “relação” ao limite: renomeava o mundo (Fernando Pessoa, em seu texto, é Aossê, um falcão; Camões é Comuns, etc), era literal em suas colocações, não incluía a metáfora em seu projeto de escrita (“para mim não há metáforas, não existe o ´como se´), propunha um mundo em “sobreimpressão”, em que, sobretudo as línguas, mas também as imagens, se apresentam sobreimpressas, sem cair no modelo do palimpsesto ou da bricolagem, como tanto defende a contemporaneidade. Nesse sentido, Llansol está muito mais próxima do que Nietzsche (que, aliás, é uma figura de sua obra) entendia como o “extemporâneo”, noção que vai ser retomada por Agamben em O que é o contemporâneo?, ao se inserir no seu tempo justamente por se colocar fora de seu tempo.

– Como a visão de mundo da escritora se relaciona com a vida atual? 

L.C.B- Justamente nessa dimensão nietzscheana do “extemporâneo” que acabo de mencionar. Llansol tem um livro muito importante, que se chama O Senhor de Herbais, e que tem o seguinte subtítulo: “breves ensaios sobre as estéticas do mundo e suas tentações”. Nesse livro, que não é exatamente um livro de ensaios (como se entende convencionalmente o ensaio), mas, digamos, um livro com uma “vocação teórica” ainda mais nítida que os outros, Llansol se debruça sobre seu próprio texto, “explicando-o”. Os capítulos desse livro têm como título os títulos de seus livros e ela retorna a muitos de seus livros, em “sobreimpressão”, explicando-os, à sua maneira, claro. Mas esse livro também vai discorrer sobre o que Llansol chamará de “estéticas do mundo”. E aí aparece que é chamado, no livro, de “texto orgânico”. É nessa dimensão do “texto orgânico” que podemos situar o texto de Llansol. Curiosamente, esse “texto orgânico”, que não é só contemporâneo, pois sempre esteve aí, pode se relacionar bastante com a vida atual, sobretudo porque ele propõe o que poderíamos chamar de uma “ética da paisagem”. Essa ética tem a ver com o fato de que a paisagem é o “terceiro sexo”, como ela propõe, um sexo complexo, ainda mais complexo que o do homem e o da mulher. Então, podemos dizer que o texto de Llansol apresenta uma “visada ecológica” que é bastante contemporânea, mas avançada, muito avançada, pois trata-se da paisagem como um “sexo complexo”. E, nessa complexidade, precisamos “cruzar” o “sexo da paisagem” com o “sexo de ler”, outra figura llansoliana. E pensar que a leitura, em Llansol, comporta uma ética muito especial, que é a ética da paisagem. Este é também um dos sentidos que podemos conferir ao “legente”, termo que ela própria cunhou para o leitor, o leitor de seu texto. Mas sobre esse assunto creio que não posso dizer mais, pois é um assunto ainda em investigação, precisamente como objeto de tese de um dos meus orientandos, o João Rocha.

Caso lhe ocorram outros pontos importantes sobre Maria Gabriela Lansol, gostaria que os mencionasse, por favor.

L.C.B-Quero sublinhar apenas que, aqui no Brasil, a leitura que se tem feito do texto de Llansol vem acompanhada de muito perto da Psicanálise.É na linha de pesquisa “Literatura e Psicanálise” que se situam, em sua maioria, os trabalhos que se desenvolvem acerca do texto de Llansol. E por que? Porque a ética da Psicanálise, de alguma maneira, aproxima-se bastante da ética proposta pelo texto de Llansol; porque a noção de inconsciente nos ajuda a pensar as noções llansolianas de “legente”, de “corp´a´screver” e de “sexo de ler” (citando apenas três);  porque o avanço de Llansol, no campo do discurso, é comparável ao avanço de Freud. E isso também foi tema de uma outra tese, da psicanalista Maria Elisa Arreguy, já defendida na UFMG. *fotos: Izzzabella Campos

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