Quando é arte? Palestra lotou café do Espaço TIM UFMG do Conhecimento

À interessada plateia que lotou o California Coffee, no Espaço TIM UFMG do Conhecimento no sábado, 03 de setembro, o professor Ronaldo de Noronha tentou desfazer o que ele considera um equívoco quando se fala de arte. Segundo o professor de Sociologia da Cultura e da Arte da UFMG, a questão “o que é arte?” é inadequada. “A pergunta deve ser: quando é arte?”, disse, dando início à palestra, devidamente batizada de “Quando é arte?”.

 

A palestra começou apresentando “o problema dos gregos”, cuja origem é a dificuldade assim enunciada por Karl Marx: “A dificuldade não reside no entendimento de que a arte e a épica gregas estão atadas a certas formas de desenvolvimento social.  (…) A dificuldade é que elas ainda nos proporcionam prazer artístico e que, de certo modo, ainda contam como uma norma e um modelo inatingível.”

 

Para o palestrante, este problema refere-se à persistência do valor artístico, e é um problema da recepção e da apreciação e não da criação da arte.

Recorrendo a filósofos e historiadores da arte, ele procurou determinar alguns aspectos referentes ao gosto artístico e à apreciação da beleza nas obras de arte. De Hannah Arendt, citou o trecho: “Se todos os objetos têm uma forma, através da qual aparecem, só as obras de arte são feitas com o único fito de aparecer. O critério próprio para julgar o aparecer é a beleza.”

 

De Immanuel Kant, Noronha lembrou a ideia essencial para as discussões sobre a natureza da arte, de que é belo o que é representado, sem conceitos, como objeto de satisfação universal, já que a satisfação que dele se tira é livre e desinteressada, logo não fundada numa condição de ordem pessoal e privada.

 

Procurando fundamentar o ponto de vista da palestra, expresso no seu título, o palestrante recorreu à história da arte no Ocidente, a partir da herança cultural greco-romana, para chegar à concepção de arte nos tempos modernos.

 

Um mundo da arte se criou na civilização greco-romana quando, segundo Ernst Gombrich formou-se na Grécia e em Roma um público de arte, de colecionadores e entendidos que mandavam fazer cópias de esculturas e pinturas para exibi-las nas suas casas e jardins, cuja consequência foi retirar a imagem do contexto prático para o qual foi concebida, passando a ser admirada e apreciada por sua beleza e fama, no contexto da arte.

 

Assim, ao longo dos séculos, a arte no Ocidente constituiu para si uma Tradição, em que, como afirmou Gerhart Wiebe, “a cada geração, os homens de talento se formam pelo estudo e pela contemplação das obras realizadas por aqueles que se reconhece como mestres. (…) Um artista não deseja mais nada além de ganhar um lugar entre os mestres cujas obras constituem essa tradição”.

 

Erwin Panofsky ressaltou que a relação do observador com a obra de arte nunca é ingênua e espontânea e “a bagagem cultural” do observador contribui para o objeto de sua experiência, acrescentando que a obra de arte depende da interpretação do observador para existir como fenômeno cultural e sua história seria a história de suas interpretações.

 

No ensaio “Do Padrão de Gosto”, David Hume, tratou da formação do gosto do público, afirmando que este é passível de ser treinado por meio da percepção e da imaginação, e apresentou um programa para desenvolver nas pessoas a “capacidade de avaliar a católica e universal beleza”.

 

Segundo o professor Noronha, as noções de uma católica e universal beleza, de satisfação universal, livre e desinteressada, que alimentaram a reflexão de Marx sobre o valor da arte grega, perderam seu fundamento quando, como consequência dos ataques à Tradição Ocidental pelos pensadores e artistas durante a segunda metade do século XIX, o fio desta Tradição foi rompido, e a arte no Ocidente foi tomada de assalto pelas vanguardas revolucionárias do início do século XX: a partir daí, a definição do que é arte, universalmente, se tornou impossível.

 

Para compreender a arte a partir de então, é preciso recorrer às pesquisas da Sociologia e da História da Arte, em particular ao conceito de mundos da art. Segundo Howard S. Becker, estes consistem em “todas as pessoas cujas atividades são necessárias à produção das obras características que aquele mundo, e talvez outros, definem como arte”.

 

A definição de uma obra como “artística”, o mais alto juízo de valor estético, se faz no interior dos mundos da arte e deve ser considerada como parte essencial do conjunto de entendimentos em uso que orientam as percepções e os planos de ação dos membros desses mundos. Portanto, não compete ao sociólogo ou historiador dizer o que é ou não arte, mas descobrir por que e quando uma obra é assim rotulada por aqueles que têm autoridade para tal, sentenciou o professor.

 

A palestra foi encerrada com a citação de Howard Becker: “muitos trabalhos que parecem partilhar as qualidades do que é chamado de grande arte nunca recebe essa distinção, e isso sugere que a diferença não repousa no trabalho assim honrado, mas antes no processo de honrar”.

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