Nomes de lugares – trabalho lingüístico em exposição

A partir deste post, retomamos a série de entrevistas com consultores da Exposição Demasiado Humano, em cartaz no Espaço TIM UFMG do Conhecimento. Conheça um pouco mais do trabalho da pesquisadora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, Maria Cândida Seabra, consultora da instalação Os nomes e os lugares.

Maria Cândida é graduada em Comunicação Visual pela Escola Superior de Artes Plásticas, 1983, e em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 1988. Mestre em Língua Portuguesa pela UFMG, 1994; doutora em Estudos Linguísticos pela UFMG, 2004, e pós-doutora em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP), 2009.

Atualmente, é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, professora e pesquisadora da UFMG. Ela atua principalmente com os temas: linguística histórica, léxico, lexicografia, Atlas Toponímico e toponímia.

As pesquisas em que está envolvida atualmente são: Dicionário Histórico de Português do Brasil (séculos XVI, XVII e XVIII) e Atlas Toponímico do Estado de Minas Gerais (ATEMIG).

Como é a instalação “Os nomes e os Lugares” que integra a exposição Demasiado Humano?

A exposição “Os nomes de lugares” está vinculada ao Projeto ATEMIG, pesquisa que estamos desenvolvendo, desde 2005, na Faculdade de Letras da UFMG. O ATEMIG – Atlas Toponímico do Estado de Minas Gerais – caracteriza-se, inicialmente, como um estudo dos nomes de lugares que tem como objetivo geral procurar ampliar e aprofundar o nosso conhecimento sobre a língua portuguesa no território mineiro. É um projeto que abrange os estudos do homem e da sociedade por meio da linguagem e da investigação onomástica, enquanto destaca a inter-relação língua e cultura. É, portanto, um estudo que envolve não só aspectos lingüísticos, mas, também, culturais, já que procura relacionar o nome do lugar a fatores socioculturais, históricos e ideológicos.

Há que se destacar a importância dos nomes de lugares não só para o conhecimento da evolução fonética das línguas, mas, ainda, para o conhecimento dos estratos históricos e culturais de um território. Os nomes de lugares nos trazem valiosas informações que podem ser utilizada em várias áreas do conhecimento humano. São referentes, mostram localizações de relevo, hidrografia, minerais, flora, fauna, agricultura, atividades humanas em geral, religião, grupos étnicos, etc;

Para integrar essa exposição, destacamos, do “Banco de Dados” desse Projeto que venho coordenando, os fitotopônimos, isto é, os nomes de lugares motivados por nomes de plantas, que se encontram distribuídos nas doze mesorregiões que compõem o Estado de Minas, registrados em cartas geográficas do IBGE.

O interesse na preservação dos nomes de lugares e o reconhecimento do papel relevante da natureza – em especial das árvores e plantas em geral – no momento em que vivemos, levou-me a pensar estratégias de valorização e revitalização desses nomes motivados por plantas que, conforme já pudemos constatar, sobrepõem-se em número a outras motivações toponímicas no território mineiro.

Esta exposição de cunho lingüístico-cultural e ambiental tem, portanto, por objetivo não só dar a conhecer e divulgar a fitotoponímia mineira, mas contribuir, também, para o conhecimento da língua e dos povos que habitaram e habitam Minas, identificando influências africanas, portuguesas, indígenas, estrangeiras nas várias regiões desse estado.

Considerando a escassez de informação referente aos topônimos em Minas e a quase inexistência de pesquisas lingüísticas nessa área, o estudo da fitotoponímia mineira, por meio da descrição onomástica, reveste-se de grande importância, na medida em que constitui uma fonte essencial para a identificação de árvores e plantas que se concentram nas diversas regiões do Estado.

Com essa organização e mapeamento dos fitotopônimos mineiros que realizamos, entendemos contribuir para conhecimento da natureza local das várias regiões do estado de Minas Gerais, por meio do reconhecimento do valor patrimonial do nome de lugar – entidade lingüístico-cultural de valor inestimável.

E a “Diversidade Linguística”?

A exposição “Diversidade Lingüística” é uma amostra da riqueza cultural que temos no nosso Estado. Abrange desde os falares do povo, resultado de inúmeras gravações realizadas por pesquisadores, decorrentes de vários projetos que se desenvolvem na Faculdade de Letras da UFMG, como, também, de resultados de trabalhos desenvolvidos por pesquisadores de outras instituições, como o do Prof. Mário Zágari da Universidade Federal de Juiz de Fora. Do trabalho desse pesquisador, destacamos seu estudo do léxico e da fonética, resultando na divisão tripartida de Minas: o falar mineiro, o falar do norte e o falar do sul. Nessa exposição, destacamos, ainda, as línguas indígenas faladas em Minas, trabalho desenvolvido pela Profa. Inês Almeida e os trabalhos sobre remanescentes de línguas africanas, objeto de estudo da Profa. Sônia Queiroz. Na “Diversidade Linguística”, as pessoas percebem que em Minas a língua e a cultura vão além da língua portuguesa.

Como é ter um trabalho no Espaço TIM UFMG do Conhecimento?

É muito gratificante ver uma pesquisa lingüística sair do espaço acadêmico e ganhar espaço público. Pena que são muito poucas as chances como essa. O espaço TIM UFMG do Conhecimento vem diminuir essa carência, uma vez que é um espaço da cultura, um lugar em que as pessoas ampliam seus conhecimentos.

 

Como o trabalho se relaciona com a interatividade?

Esse “diálogo” com o público que a interatividade possibilita é extremamente rico. No Espaço do Conhecimento, você para onde tiver mais interesse. E o mais importante, participa, escolhe, demora o tempo que quiser em uma ou em outra exposição. Enfim, você constrói seu conhecimento. É um espaço que educa!

O que você acha do Espaço TIM UFMG do Conhecimento?

O Espaço TIM UFMG do Conhecimento é um lugar muito especial. Como já disse, além do aspecto cultural, de aprendizagem, o Espaço ficou lindo! É um lugar que oferece às pessoas – crianças e adultos – a possibilidade de conviver com pesquisas sérias, frutos de trabalhos de pesquisadores universitários. Em cada andar que você entra, encontra algo que encanta porque chama a atenção. É o conhecimento interagindo com as pessoas e essa interatividade é muito legal e, sobretudo, didática.

Tem uma representatividade cultural, fazer um museu com coisas de Minas?

Claro que sim. O Espaço TIM UFMG do Conhecimento retrata o que a tecnologia desse início de século pode fazer pela aprendizagem. É algo novo, moderno que se alia ao conhecimento de ponta, produzido pela universidade. Quem lucra com essa parceria  são as pessoas que recebem de forma prazerosa o conhecimento gerado pela academia.

Uma resposta to “Nomes de lugares – trabalho lingüístico em exposição”

  1. Murilo Vidigal Carneiro Says:

    Excelente trabalho desenvolvido.Moro em uma cidade que teve o seu nome trocado .Chamava-se Calambau e passou,quando de sua emancipação, a chamar-se Presidente Bernardes.De acordo com o historiador Padre Pedro Maciel Vidigal,que foi por muito tempo membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, tal denominação de origem indígena, significa: lugar onde o mato é ralo e o rio faz curva.Vocês possuem alguma referência sobre estes dados?

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